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 Opinion
 Climate change

Uma chamada à liderança sobre mudanças no clima

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Anonymous
Friday, 24 January, 2014

"Todos os anos, a incapacidade em agir nos deixa mais próximos de um ponto sem retorno, no qual os cientistas receiam que as mudanças climáticas possas se tornar irreversíveis." No início de um ano decisivo para agir sobre as mudanças climáticas, Kofi Annan faz um apelo para uma liderança ousada com o objetivo de alcançar um mundo com zero emissões de dióxido de carbono em 2050.

Kofi Annan

Quando Nelson Mandela criou The Elders (Os Anciãos) para promover a paz e os direitos humanos em todo o mundo, ele nos desafiou a sermos ousados e a dar voz àqueles que não a têm. Nenhuma questão exige estas qualidades mais do que nossa incapacidade coletiva de lidar com os problemas das mudanças climáticas.

As mudanças climáticas são o maior desafio da nossa era. Elas ameaçam o bem-estar de centenas de milhões de pessoas agora e de muitos bilhões no futuro. Elas destroem o direito humano à alimentação, água, saúde e abrigo – causas pelas quais temos lutado toda a nossa vida.

Ninguém nem nenhum país escapará do seu impacto. Mas são aqueles sem voz – porque já são marginalizados ou ainda não nasceram – que se encontram em maior risco. Temos um dever moral urgente de falar em seu nome.

Dado o peso notório das evidências, pode ser difícil entender por que motivo continuamos avançando lentamente relativamente à ação coordenada necessária para reduzir as emissões dos gases de efeito estufa. O último relatório dos especialistas do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas afirma claramente que o aquecimento do sistema climático é “inequívoco” e que o comportamento humano é muito provavelmente sua causa.

Temos visto nos últimos meses – de tufões nas Filipinas, ao vórtice polar na América do Norte e inundações em toda a Europa – o aumento de eventos de clima extremo, sobre os quais os especialistas fazem avisos; isso é exatamente o resultado inevitável das mudanças climáticas. Os custos já são avultados e, por esse motivo, o Banco Mundial, o FMI e a Agência Energética Internacional se juntaram à comunidade científica para avisar sobre os riscos que estamos correndo. Já não são somente os ambientalistas que fazem soar os alarmes.

E, todos os anos, a incapacidade em agir nos deixa mais próximos de um ponto sem retorno, no qual os cientistas receiam que as mudanças climáticas possam se tornar irreversíveis. Estamos a correr um enorme risco com o futuro do planeta e da própria vida.

Sabemos o que é preciso para evitar esta catástrofe. Os aumentos da temperatura global devem ser limitados a menos de 2 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais. Isso significa um afastamento dos combustíveis fósseis e a ativação de energias renováveis econômicas, por exemplo, colocando um preço internacionalmente acordado nas emissões de carbono. O caminho a percorrer precisa ser o cumprimento de um cronograma para um novo acordo sólido, universal e legalmente vinculativo sobre as mudanças climáticas no próximo ano, segundo o qual cada país se comprometerá em reduzir gradualmente as suas emissões de gases de efeito estufa.

2014 é um ano decisivo. O Secretário-Geral das Nações Unidas convocou uma Cúpula sobre o Clima em Nova York em setembro. É imperativo que os governos e os líderes corporativos estejam presentes nessa cúpula e tragam sugestões ambiciosas de ações sobre o clima, se quisermos ter alguma chance de alcançar um acordo em 2015 proporcional ao desafio.

Muitos dos Elders já foram responsáveis por governos. Não cometemos o erro de pensar que tratar das mudanças climáticas é uma questão fácil. Mas sabemos que existem momentos em que, independentemente das dificuldades do panorama imediato, os líderes precisam mostrar coragem e ousadia. Esse é um desses momentos.

A nossa experiência também nos ensinou que, se os líderes tomarem as decisões corretas pelos motivos corretos, os eleitores os apoiarão. Aumentando suas expectativas – e pondo de lado as barreiras impostas pelos interesses instalados e pelas considerações políticas de curto prazo – eles podem também inspirar a esperança, reconstruir a confiança e mobilizar a ação das sociedades.

As soluções para as mudanças climáticas não surgem somente de centros de pesquisa e laboratórios, mas também através de inovações apresentadas pelas pessoas mais afetadas. Muitas comunidades e empresas, governos locais e nacionais, incluindo em países em vias de desenvolvimento, já estão nos mostrando o caminho para um mundo sem emissões de dióxido de carbono. Esses esforços agora precisam ser ampliados.

A justiça climática também requer que os países mais ricos, que contribuíram mais para causar o acúmulo das emissões de gases de efeito estufa na atmosfera – e colheram os benefícios – ajudem as nações mais pobres a se adaptar às mudanças climáticas já em marcha.

Chegamos em uma encruzilhada. Em uma direção, um legado terrível pode ser passado para nossos netos e bisnetos. Na outra, está a oportunidade de fazer nosso mundo dar os primeiros passos em direção a um mundo mais justo e sustentável. Não queremos que as gerações vindouras digam que falhamos.

Nos próximos meses, os Anciãos farão um apelo para que governos, empresas e cidadãos sejam líderes ousados no esforço de alcançar um mundo sem emissões de dióxido de carbono em 2050. Velhos ou novos, ricos ou pobres, se alguma vez houve uma causa capaz de nos unir a todos, essa deverá ser a das mudanças climáticas.

Publicado em Estado de Sao Paulo (Brazil).

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